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O Doador Arrisca a Sanidade no Ato da Entrega

  • 7 de ago. de 2017
  • 4 min de leitura

Conversa #36

I Am Not Your Negro (Raoul Peck, França/ Estados Unidos/ Bélgica/ Suiça, 2016)

"The giver risks madness in the act of given" reza a linha de um conhecido poema de James Baldwin. As incoerências de discurso em I Am Not Your Negro estão por todos lados. Há visões de mundo diversas. Elas provém dos líderes ativistas negros estadunidenses de meados do séc. XX. Mas, mesmo filtradas e escolhidas por James Baldwin e, claro, depois por Raoul Peck, soam confusas. Disparatadas às vezes. Como se não bastassse, em não poucos momentos parecem confrontar-se visceralmente com as teses de momento, as dos Estudos Culturais.

Embora seja difícil imaginar a emergência de tal vertente de estudos sem a radicalização ativista e especulativa que a precedeu, parece haver mais verdade no ativismo que na letra dos estudos. E especialmente entre 1955 e 1974. Nesses aproximadamente 20 anos se forjaram as bases de um novo contrato entre negros e brancos nos Estados Unidos que perdura até hoje. E, com todas as suas terríveis imperfeições e distorções, esse contrato ainda responde por um significativo avanço dos direitos civis dos negros. Em especial, diante de uma abolição da escravatura que só começa a ter efeito de fato 100 anos depois --- e não apenas nos estados do Sul. (E não apenas para negros. Basta lembrar que até 1948 o cinematografista James Wong Howe, de origem chinesa, não pôde casar de fato com sua esposa, a escritora Sonora Babb, porque o casamento interracial era banido por lei nos Estados Unidos --- e leis análogas, estimulando a não miscigenação, perduraram até 1967).

I Am Not Your Negro dimensiona, assim, para as novas gerações, os ativistas negros dessa época de crises e transições. Gente como Baldwin, Belafonte, Poitier, Malcom X, Medgar Elvers, Martin Luther King, Jr., Lorraine Hansberry. Gente que à sua época, defrontou-se com uma repressão muito mais violenta, e teve que agir de modo bem mais radical para alcançar os direitos e garantias civis que foram inicialmente logrados --- e, desde então, apenas ampliados. E ampliados nem sempre em lucidez. Para não falar da tendência a serem copiados, ipsis-litteris na América Latina, na África, e em outras regiões do planeta, onde a realidade é diversa da americana. Embora, especialmente na América Latina, haja algumas similitudes --- sobretudo em relação ao Sul dos Estados Unidos e a conformação hierárquica da 'plantation', quando comparada a nossos canaviais, algodoais, cafezais e roças de cacau e fumo.

O valor de I Am Not Your Negro passa menos pelas imagens que pela magnificação explosiva que as frases de Baldwin, no voice over de Samuel L. Jackson, é capaz de carregar, de municiar. Em particular, a evocação dos mortos nas batalhas pelos direitos civis soam eloquentes: Medgar Evers, Macolm X, Martin Luther King, Jr. e, de certa forma, Lorraine Hansberry. Aqui é possível plasmar seu apreço pessoal por Medgar Evers, certo fascínio pela figura de Macolm X, uma calculada reserva diante de Luther King, e o pesar pela morte de um talento tão promissor quanto Hansberry.

Mas não deixa de ser estupendo que Baldwin tenha tido contatos pessoais e desenvolvido algum tipo de diálogo com cada uma dessas quatro lideranças que são hoje parte da história. E, logo, quando ele fala na história como um vetor presente, uma história já, agora, neste segundo, não se pode deixar de pensar na suspensão de todas as utopias em prol de uma justiça urgente, que é da ordem do escatológico, do apocalíptico. Uma noção que vem sendo retomada nas digressões de Agamben sobre o papel progressivamente amesquinhado da escatologia, da salvação e do fim dos tempos na doutrina cristã, tal como formulada pela teologia romana oficial. Essa urgência do agora, da história agora, reivindicada por Baldwin faz lembrar o Jetztzeit de Walter Benjamin: o tempo que ao subsumir as injustiças do passado num presente potencial e avassaladoramente justo, repara para sempre o mundo injusto, e vinga os mortos ameaçados de precipitarem-se na vala comum do esquecimento (histórico).

Nem todas as imagens são fortes. Nem todas as palavras, coerentes. Hoje há várias vertentes para ações e movimentos de minorias. A dificuldade de ser um ativista àquela época era, no entanto, imensamente maior. O que significa menos esporte (ou populismo) e uma maior sinceridade e vocação de propósitos.

Incoerências de lado, há cenas emblemáticas. A foto em que quatro policiais afrontam e um deles põe o joelho no pescoço de uma velha senhora negra, numa calçada de Birmingham, Alabama, é chocante. Há outras do mesmo calibre. A marcha sobre Washington que põe em torno da mesma mesa figuras tão díspares quanto Harry Belafonte e Sidney Poitier de um lado; e Marlon Brando e Charlton Heston, do outro, é algo que dá o que pensar quanto à integridade individual de cada um. Ou quando se sabe das posições políticas republicanas e conservadoras de um Heston. E, ainda assim, seu desejo de não se furtar ao debate, de estar na linha de frente de uma das conversas mais radicais quanto aos direitos civis de seu país. São paradoxos do tipo que nos repassam o recibo da grandeza da sociedade civil num país das dimensões dos Estado Unidos.

Outro grande momento do documentário se dá quando Baldwin confronta a assepsia refrigerada representada pelas siroposas canções interpretadas por Doris Day, diante da majestática postura ao piano e da densidade das plangentes canções de Ray Charles. Importante ressaltar que ambas as atitudes têm algo de profundamente americano. Mas que a diferença de calibre entre ambas é proposta quase desonestamente por Baldwin, porque este sabe aonde ecoa a dor de centenas de milhares de vozes escravas cantando em uníssono, coladas ao timbre preciso e metálico de um cego, de uma espécie de Tirésias negro, sentado ao piano.

É possível que num documentário do gênero, as complexidades históricas e sociológicas da relação entre negros e brancos nos Estados Unidos apenas sejam apresentadas. Ou melhor dimensionadas historicamente em forma de esboço. Em especial, para aqueles que dela têm uma visão simplista. Mas se ajudarem a tornar essa visão só um pouco mais densa --- e é difícil que isso ocorra para a maioria dos espectadores --- já seria um trunfo desse documentário que deve inteiramente sua unidade à verve da escrita de James Baldwin.

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