A conversa enquanto gênero
- 2 de fev. de 2019
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As Conversas do Cinematógrapho
-e a conversa enquanto gênero
A "conversa" de Figurando o Cinematógrapho conforma algo distinto de "resenha". Não didatiza, emoldura a assistência de um filme. Está pouco preocupada com algo da ordem da resenha: se vale a pena assistir, o que sublinhar, se contém spoilers, quantas estrelinhas. Sem falar que algumas das conversas são tanto mais longas. A que versa sobre Roma, p. ex., tem doze páginas, sem contar fotos.
Fica claro, quando Bresson intitula seu filme de Um condenado à morte escapou (1956), faz isso consciente e deliberadamente. Entrega o final do filme já no título. E é porque entende: o naco de tempo gasto, que culmina nesse desfecho, é o que conta. Ou a reflexão posterior sobre o filme. Mas essa astúcia de Bresson parece péssima aos olhos dos americanos e ingleses. Ela fere o sentido de lucro que é tão deles. O usufruto em usura e mais-valia desse final. Pois para eles está claro que o sentido de lucro segue de mãos dadas com o desfecho da trama. Tanto assim que o título em inglês tende suavizar um tanto o prejuízo: A Man Scaped. Quer dizer, esse homem que escapa pode ser tanto o protagonista -- que estava condenado à morte -- quanto qualquer outro companheiro no campo de prisioneiros. Inclusive os que não iriam ser executados.
Logo, conversa aqui quer dizer ensaio perto de fala. Jeito mais leve de propor ideia. Em vez de decalcar do artigo acadêmico -- de tom enfadonho, hierático, previsível -- a conversa parte de um híbrido: ensaio, sempre; mas posto numa inflexão coloquial. Algo mais afim da crônica, do diário, da nota da viagem que olhos percorreram. Uma espécie de travelogue do filme enquanto região visitada.
Figurando o Cinematógrapho na gênese -- e a partir de uma visada fotográfica, mas não só -- assuntou filmes lançados em 2016-17 (40 conversas). Depois girou a chave para uma série de thrillers produzidos em Hollywood entre 1944-58. Fez isso para ressaltar o período em que fotograficamente o cinema moderno foi gestado (30 conversas). Em seguida, voltou-se para a continuidade do western enquanto atitude, geografia e sobretudo gênero (5 conversas). E interrompeu essa tarefa para conversar sobre alguns filmes da safra 2017-18, aproveitando o ensejo do Oscar, que virá daqui duas semanas (próximo dia 24).
Assim, há novas conversas pelo Cinematógrapho. Como alguns de vocês perceberam. (E, aliás, só as há graças a cobrança de leitores como Esther Ramos e Daniel Lopes). Essas conversas, publicadas à razão de duas por semana, começam com Roma, e irão se estender por pouco mais de 10 filmes.
Em Phantom Thread o assunto é fotografia heterodoxa, e o débito de Paul Thomas Anderson para com Kubrick e Ophüls. Em The Other Side of the Wind, o quanto um mestre pode virar rótulo, fetiche mercadológico; ou a boa-vontade de cinéfilo, explorada. Cá no Brasil, não deixa de ser significativo: Roma é projeto mais vinculável ao Netflix que o filme póstumo de Welles. Por quê?
A conversa sobre First Reformed propõe que a leitura de Bresson empreendida pelas lentes de Schrader é controversa, desde pelo menos Transcendental Style in Film (1972). Em torno de The Ballad of Buster Scruggs, indica-se certa tendência de os filmes dos Coen derivarem de uma imagem still. Geralmente uma estampa ou ilustração. E o de quanto isso é astucioso, mas também da ordem de um leitor paciente, como não há mais.
Loveless é festejado como um dos grandes filmes "políticos" da temporada, junto com Transit. E tenta-se dimensionar as razões de Zvyagintsev ser dos autores mais eloquentes e comprometidos em atividade. Seria Pawlikowski uma versão cosmética de Zvyagintsev? Transit nos propõe novas formas de conceber, recordar e contar a história. E por isso é um filme político mais rematado e sutil, digamos, que BlacKkKlansman. E isso estará ainda em conversas respectivamente sobre Cold War, BlacKkKlansman, Transit, Isle of Dogs, The Favourite, entre outras.
A frequência ao blog tem crescido. Sobretudo a partir dessas conversas sobre os filmes do ciclo do Oscar. É bom que haja o recorte proposto por esse ciclo numa época de tão poucos constrangimentos, de tão poucos recortes. Um texto chave versa sobre Roma, e contrapõe o filme de Cuarón a certa pulsão política e orientação estética na América Latina, no Brasil, neste quadrante desolado, de polarização. Haveria, aqui, uma dimensão autoritária de esquerda a patrulhar determinados motivos. Logo, a conversa acerca de Roma é igualmente sobre longas brasileiros produzidos desde os 2000. E também consiste num resumo crítico do atual impasse político. Só que pensado pelo método menos chato.
Obrigado pela leitura. Bom Carnaval.
Ruy
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