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Sob os ombros de General Inverno

Conversa#96 -Ano 3- Oeste por toda parte[11]

Day of the Outlaw (André DeToth, Estados Unidos, 1959) - cin. Russell Harlan

Em um vilarejo nas geladas montanhas do Wyoming, está para ocorrer um tiroteio entre os moradores locais, quando malfeitores que recém assaltaram um banco, invadem o saloon, e transformam ambas as partes em reféns. Começa a cair uma nevasca e todos se encontram sitiados no vale. O líder do bando é um ex-capitão do exército, Jack Bruhn (Burl Ives). Ele se encontra gravemente ferido e necessita dos cuidados de um prático local, para a extração de uma bala.

Mas seu estado, mesmo após a extração do projétil, prossegue a inspirar cuidados. Bruhn deu sua palavra aos reféns de que não haveria embriaguez e desordem. Porém seus subordinados, capitaneados pelo truculento Tex (Jack Lambert), começam a ficar impacientes. Querem beber e dançar com as mulheres locais. Pão e circo. Bruhn permite que isso aconteça, com algumas restrições. Então, improvisa-se um baile.

Assustadas, as mulheres são forçadas a dançar e receber "carícias" nada consensuais. Particularmente, Helen Crane (Tina Louise), a bela esposa de um fazendeiro local - e também amante de um vaqueiro, Blaise Starrett (Robert Ryan) - vê-se em crescente apuros. Blaise é um tipo durão e, ao perceber que a coisa vai fugir ao controle de Bruhn, propõe conduzir Bruhn e seu bando para fora do vale, através de uma trilha pouco praticada. Nesse ínterim, Gene (David Nelson), o mais jovem dos bandidos e Vivian (Betsy Jones-Moreland), a filha do merceeiro local, acabam se apaixonando. E não deixa de ser sagaz esse congraçamento entre gente de bem e foras da lei. Pois há algo de uma complexa lógica bíblica, aqui.

Blaise convence Bruhn a evadir-se do vale pela trilha, a despeito da nevasca, afinal ele está ferido e com a vida em jogo. Logo tomam as providências para a expedição, e partem. O caminho é áspero. Os cavalos têm neve pelas ilhargas. Uma série de incidentes segue dizimando o bando. Parte dele mata-se entre si. Outra parte é morta pelo frio. Bruhn morre em consequência de seu ferimento. Os únicos a escapar são Blaise e Gene. Eles retornam ao povoado e retomam a vida.

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É botar o olho na abertura deste filme e ver a abertura de The Hateful Eight (2015).

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Planos fixos, contemplativos. Mais longos do que era uso à época. Certa atmosfera lenta e europeia, que é quase um prólogo a Sergio Leone. E Glauber. E Jodorowsky. E Monte Hellman. Os avós do pessoal da época de Kelly Reichardt

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Num instante em que Ryan se ergue da cadeira em conversa com Tina Louise, a câmera segue junto, ergue-se de leve, na mesma proporção. É um impulso meio inesperado. E belo.

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Pode-se dizer que o olhar de DeToth é menos enviesado que o de Tourneur.

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Nesta sequência do início há ainda um plano longo, bastante inusual. Trata-se de uma pan à direita, demorada e tanto irregular. Toma o saloon e seus anexos, a floresta, as montanhas em torno. E há um corte. Mas a pan pretende seguir até depois do corte, meio como se fosse parte do olhar de Blaise Starrett (Ryan) antes de armar-se. Alguém cismando com a vida. Hesitando. Esse filme é excepcional. Não há nada que o indique nos westerns passados de DeToth, que são bastante prosaicos. Mas este é poesia.

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Circunstância aproveitada depois no filme de Tarantino, os asseclas de Jack Bruhn (Burl Ives) à medida que o tempo passa vão tomando pé de uma situação: o controle das ações no vilarejo invadido exige deles um empenho racional a fim de administrar a comunidade. Isso os desespera. Eles querem beber, espancar os homens ou uns aos outros, seviciar as mulheres, praticar pequenos furtos e contravenções. Se possível, ao som de um pouco de música. Começam a perceber o quanto se sentem desgraçados e infelizes por não poder fazer isso:

--Captain you won't let nature take its course. Man don't act like you make us act here. We got this town under our thumb but we've got no pleasure out of it - é o resumo da ópera feito por um deles.

--Two more days like this is gonna seem two more years. Maybe not even you can keep us in line, Bruhn.

Isto é, a coisa chega ao ponto em que eles temem pela autoridade do próprio chefe, pois reconhecem que a indignidade e a repressão às quais estão sendo sujeitos cobrará um preço. Feliz da época em que até os bandidos tinham essa consciência e esse veio existencialista. Uma espécie de auto-consciência: são bandidos, praticam crimes, algo que não é a norma da sociedade em que vivem.

O capitão ao pressentir que a barra está pesada, faz algumas concessões. Mas o capitão é também um facínora de princípios. E na cena seguinte, quando o vemos encarapitado no alto da escada, a inspecionar o ambiente, o fato do filho caçula do merceeiro encontrar-se atrás dele demarca o quanto o capitão se vê como uma espécie de guardião dos princípios da família.

Lá embaixo, o resto do bando dança com mulheres apavoradas ao som do piano do merceeiro. E até forma-se um casal mais consensual no caso de Gene (David Nelson), o bandido mais jovem, e Vivian (Betsey Jones-Moreland).

Quando o capitão desce a escada -- seguido pela criança -- interrompe a tentativa de Tex (Jack Lambert). Este busca bolinar e estuprar a bela Helen Crane (Tina Louise). Ao sacar a arma no instante em que o outro está literalmente armado, pegando fogo, a analogia entre a arma e o falo nunca foi mais explícita. Ou cômica, a despeito do profundo incômodo que vexa a pergonagem de Louise. E então Bruhn sai a dançar educadamente com Mrs. Crane.

Mas Blaise vai até o saloon e estraga a festa ao sugerir que pode conduzir o bando para fora do vale, mesmo sob a nevasca.

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A trilha é duríssima, está toda impedida. Os cavalos seguem com neve à altura das ilhargas. Tex emborca seu cavalo, e perde a montaria.

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Ao final, o bando é vencido pelo frio. Tex, com parte do corpo enregelado, não consegue sequer dobrar os dedos para atirar em Blaise. Acaba desfalecendo na neve, enquanto Blaise se afasta lentamente na direção do povoado.

Uma cena assim é a moral dessa história.

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Poucos filmes concentram a modernidade espantosa deste Day of the Outlaw. Essa modernidade passa pelos motivos tocados (cobiça mas também luxúria -- um tema até então bastante suavizado nos westerns), pela seca contação da trama, pela concisão psicológica, pelo anti-sentimentalismo. Pelo que há de esparso na direção de arte. Pelo valor dado aos objetos, caso do espelho no saloon. O enquadramento, os cortes, o aspecto visual da coisa toda é de tirar o fôlego. Parece dez ou mais anos adiante do final da década de 1950. Não à toa veio a ser o western mais citado por Tarantino em seu melhor western: The Hateful Eight (2015). Não parece ser simplesmente um filme americano. Há uma sensibilidade centro-européia a conduzir ações. E quando no início a senhora aproxima-se da venda, parece estar adentrando uma taverna nos alpes ou nas montanhas da Transilvânia. Há uma carga psicológica densa salpicando sobre o adultério. E uma lentidão torna mais solene cada minimo movimento. Mesmo o mais violento deles. E que acaba antecipando, de certa forma, o stacato de Sergio Leone.

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